segunda-feira, 24 de março de 2014

O Mistério do Barco Desaparecido

Teve, mais uma vez, lugar o concurso literário de escolas (1º, 2º e 3º ciclos), do nosso Agrupamento. 
Este ano o tema prendeu-se com o desaparecimento do barco Meia-lua, da rotunda da Costa da Caparica.
Hoje, publicamos o conto do aluno Ricardo Rocha do 9º ano D a que foi atribuída uma menção honrosa.



O Mistério do Barco Desaparecido
“Numa manhã chuvosa de Outono, a Costa da Caparica acordou sem o seu barco típico (o meia-lua) na rotunda central da jovem cidade. Depressa os distribuidores da praça se interrogaram; os donos das mercearias deitaram as mãos à cabeça, incrédulos; os mais velhos deixaram os bancos de jardim e procuraram à sua volta. Os condutores, que faziam normalmente aquele percurso, atrapalharam ainda mais o trânsito, pois deitavam a cabeça fora da janela à procura do barco.” Formando uma fila que, àquela hora, não era nada aconselhável. Eu, que também ia a passar como habitualmente para a escola, achei estranho o trânsito que estava. Não podia ser da chuva. O que seria?
Como a fila não andava, decidi sair do carro e fazer o caminho a pé. Depois de me despedir da minha mãe e de ouvir todas aquelas recomendações típicas das mães, lá me fui embora para não chegar tarde à minha aula preferida, a de Português. Convém dizer que frequento a escola da Costa da Caparica e com muito orgulho, pois os professores apoiam muito os alunos.
Bem… fui andando e, quando estava a chegar perto do centro, comecei a ouvir um grande alarido e a sentir uma forte agitação. Quis saber do que se tratava, pensando que era algum acidente. Foi quando avistei um senhor, meu amigo, que é dono do café, mesmo em frente do sítio onde deveria estar o “ meia-lua”.
É um senhor de meia-idade, de estatura baixa e com uma farta cabeleira. Fui ter com ele, dei-lhe os bons dias, mas ele estava tão transtornado que mal me ouviu. Tive mesmo de lhe tocar no braço dando-lhe um grito:
- Ó Senhor Luís!
Virando-se, para ver quem o chamava, olhou para mim e disse:
- Então não é que levaram o barco?!
- Não posso acreditar! Quem quereria um barco tão velho, já a precisar de conserto?
Cada pessoa dava a sua opinião, uns diziam que tinha sido malandragem. Os mais velhos falavam que tinha sido a Câmara de Almada. Eu cá para mim, nenhuma daquelas opiniões fazia qualquer sentido, uma vez que o barco tinha desaparecido durante a noite. E digo isto, pois o Senhor Luís afirmava que, quando fechou o café à meia- noite, ainda o barco estava no seu sítio; logo, não tinha muita lógica! Como se estava a fazer tarde, e ainda tinha pelo menos uns dez minutos de caminho até à escola, tive que me apressar.
Senti um certo entusiasmo de tanto mistério e também queria contar aos meus colegas, em especial aos meus três melhores amigos. Aqueles que, como eu, têm espírito de aventura. Passo a descrevê-los:
O Zé tem catorze anos, é loiro, tem olhos verdes e as miúdas da turma, derretem-se todas com ele.
O Sandro, a quem pusemos a alcunha de Almirante Sandro, pois ele é repetente, tem um ano a mais que nós os três e, quando estamos na brincadeira, ele está sempre a dizer “ Parem com isso!”, com um ar tão sério que nós até lhe achamos graça e não lhe ligamos nenhuma.
E o Alberto, que é o intelectual e o perfeccionista da turma.
Como cheguei em cima do toque, não lhes pude contar, tive de esperar pelo intervalo. Mal lhes contei, concordámos em desvendar o mistério do desaparecimento do barco.
Depois das aulas, juntámo-nos e fomos ao centro da cidade. Tinha parado de chover, o que era ótimo. Íamos aprofundar o caso e dar início à nossa investigação. Traçámos um plano e distribuímos tarefas: o Zé ia recolher o testemunho das pessoas que estavam nos bancos da praça, dizendo que era um trabalho para a escola. O Almirante Sandro foi falar com o Senhor Presidente da Junta da Freguesia. E eu e o Alberto íamos sondar o Senhor Luís porque, como diz a minha avó, “nos cafés fala-se e sabe-se de tudo!”.
Fomos falar com o senhor Luís e perguntámos-lhe se sabia mais alguma coisa a respeito do barco. O Senhor Luís disse que tinha sido chamada a polícia, e que mais nada sabia. Olhámos um para o outro, muito desmotivados. Entretanto, chegou um cliente e o Senhor Luís teve de ir atendê-lo. O cliente, olhando para nós, perguntou-nos o que estávamos a fazer. Mentimos, dizendo que era um trabalho sobre o desaparecimento do “meia-lua”, para a escola. Então, para nosso grande espanto, ele começou a contar-nos que era taxista e que, na noite em que desaparecera o barco, estava de serviço e que tinha visto uns homens com aspeto de pescadores, com um trator, a rebocar o barco.
Todos os que estavam no café olharam para o taxista, incrédulos. Viemos embora, pois o taxista tinha-nos contado tudo o que sabia.
Fomos ter com os outros.
O Zé não tinha conseguido saber nada que nos desse uma pista.
O Almirante Sandro disse-nos que o Presidente da Junta nem o recebera, dizendo que para falar com ele teria de marcar hora com a sua secretária.
Só eu e o Alberto tínhamos notícias. Tínhamos escrito o que o taxista dissera e decidimos procurar pelas praias da Costa. Mas antes, o Alberto quis ir à polícia perguntar se sabiam do paradeiro do barco. Um Polícia, que estava à entrada do posto, disse-nos que não tinham qualquer pista e que devíamos ir para casa que já estava a escurecer.
Despedimo-nos e combinámos que, como era sexta-feira, iríamos fazer uma caminhada pelas praias no dia seguinte, logo pela manhã, pois era sábado e não havia aulas.
E assim foi! No dia seguinte, estava uma manhã fria, mas lá estávamos todos à hora marcada. Começámos pelo Pontão, caminhando para sul, ao longo da praia, na direção dos pescadores que costumam consertar as suas redes ao pé dos barcos. Tudo nos chamava a atenção, olhávamos para todos os barcos que estavam na praia. Os barracões dos pescadores estavam com as portas abertas. Todos… menos um…! Ficámos cheios de curiosidade e, mais ainda, quando vimos um rapaz a entrar com umas latas de tinta para o tal barracão mas, antes de abrir a porta, olhou para todos os lados, como se não quisesse ser visto. Entreolhámo-nos e resolvemos meter conversa com um velho pescador, para ver se víamos mais algum movimento. O pescador, conhecido como o Fanecas, começou a contar-nos todas as suas histórias, vividas no mar. Entretanto, enquanto o velho pescador falava, começaram a chegar mais homens, todos eles pescadores e, um a um, iam entrando no barracão o mais discretamente possível. Mas nós, apesar de atentos às histórias do Senhor Fanecas, não deixávamos de prestar atenção àquela movimentação, até que, enchendo-se de coragem, o Alberto perguntou pelo barco “meia-lua”.
O velhote, dizendo que tinha boa memória e mostrando um sorriso de grande satisfação, contou-nos toda a história do barco. Não era bem isso que nós queríamos… o que queríamos era saber se o velho pescador sabia onde estava o barco… mas ele não parecia ter qualquer ideia sobre o assunto.
A hora do almoço estava a aproximar-se. Os homens do barracão saíram deixando a porta encostada.
O Senhor Fanecas, olhando para o relógio de bolso disse que ia almoçar, até nos convidou dizendo que “em casa de pobre há sempre lugar para mais um”. Neste caso éramos mais quatro… por isso, agradecemos dizendo que os nossos pais estavam à nossa espera. Mas o que nós queríamos era o caminho livre para podermos entrar no barracão.
Fizemos de conta que vínhamos embora, até deixarmos de ver o velho pescador que, por andar com uma certa dificuldade, estava a deixar-nos ansiosos. Quando o perdemos de vista, começámos a correr e, sem mais demora, entrámos no barracão.
Estava um pouco escuro, pois apenas havia uma pequena janela. E havia um cheiro intenso a tinta fresca. O Zé, distraído, ao dar um passo, bateu com a cabeça em algo. Então, o Alberto abriu um pouco mais a porta e lá estava o barco “meia-lua”, para nosso espanto.
Afinal, aqueles pescadores estavam a arranjá-lo!
Estávamos tão surpreendidos que não vimos dois pescadores a entrar no barracão… e fomos descobertos…
Perguntaram o que estávamos ali a fazer e que devíamos saber que não se pode entrar em uma propriedade privada.
Não é que o Almirante Sandro se pôs em frente dos homens e, sem mostrar medo, lhes perguntou o que estava ali a fazer o barco desaparecido da Costa da Caparica? Disse também que ia chamar a polícia.
Os pescadores, que eram pessoas de bem, disseram para termos calma… que eles só queriam arranjar o barco e voltar a colocá-lo no mesmo sítio, por ser uma honra para todos pescadores e caparicanos e pediram-nos para guardar segredo.
Nós concordámos em ficar calados, com a condição de nos deixarem ajudar.
Então, para espanto de toda a gente da Costa, na manhã de segunda-feira, o barco “meia-lua” apareceu no seu lugar de sempre, tão misteriosamente como tinha desaparecido, só que muito mais bonito!


Ricardo Rocha

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