quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O Sol, "O Sr. Calvino e o passeio" de Gonçalo M. Tavares

 E porque falámos  em sol na BE, lembrámo-nos de um texto de Gonçalo M. Tavares. Leia, aposto que vai adorar.


"Calvino tinha nas mãos um livro cuja capa estava já por completo desbotada pelo sol. O que antes era uma cor verde escura estava agora transformada num verde tranquilíssimo, quase transparente.

Olhou para os outros livros na prateleira. Todos estavam a perder a  sua cor original, como se a luz do sol mastigasse ou roesse – sim, aquilo parecia o trabalho de um roedor subtil – a capa dos livros.

Um livro, por exemplo, que fora colocado há menos de um mês nesse local da casa onde o sol, a dadas horas do dia, incidia diretamente, apresentava um aspecto curioso: apenas uma linha da parte de cima perdera a cor, para baixo o resto da capa mantinha o vigor da coloração inicial. Não se sabe por que associação de ideias, mas Calvino lembrou-se das diferenças entre as zonas do corpo tapadas ou não tapadas, durante o verão, pelo fato de banho.

Olhou de novo para a prateleira e para as capas sem cor e subitamente como que percebeu tudo: a origem primeira do fenómeno, os verdadeiros motivos daquele acontecimento que alguém podia clarificar apenas, à superfície, como um acontecimento químico. Mas não era assim tão simples. Calvino não estava perante uma mera alteração de substancias, havia ali uma vontade, uma vontade forte que se diria munida de músculos frágeis. E essa vontade insuficiente vinha do sol: o sol, queria abrir os livros, a sua luz concentrava-se, com toda a  potência, na capa de um livro porque o queria abrir, queria entrar na primeira página, ler as narrativas, refletir a partir das grandes frases, emocionar-se com os poemas. O sol queria simplesmente ler, ambicionava-o como a criança que está prestes a entrar na escola.

Calvino meditou. De facto, não se lembrava de ter visto uma única vez  um livro aberto ao sol numa das suas páginas. Bem vulgar era que alguém, ao ar livre, pousasse um livro numa mesa ou num banco do jardim ( ou mesmo no chão), mas sempre, percebia agora Calvino, sempre com as capas duras  fechado o seu conteúdo, tapando o acesso às principais palavras.

Era tempo pois de alguém agir. Era tempo de alguém retribuir esse toque carinhoso que em certos dias a luz do sol projeta no rosto do homem, tranquilamente, mas como  que o salvando de uma grande tragédia, do desespero, por vezes mesmo do suicídio.

Calvino olhou de novo para os livros da prateleira comtemplada pelo sol. Rapidamente passou os olhos pelas lombadas. Estava a escolher um livro para alguém ler. Com  atenção profunda escolhia o livro mais apropriado; não estava, repare-se, a escolher de acordo com o seu gosto, mas de acordo com o gosto do outro. E finalmente tirou o livro. Eis um bom primeiro livro para um leitor!, exclamou Calvino para si próprio.

Abriu-o, a seguir, na primeira página, passada a ficha técnica (quem a quer ler?) e pousou o livro, assim, aberto, no inicio da narrativa, virado para o ponto onde o sol costumava descer:
(“Alice começava a ficar mais farta de estar para ali sentada ao lado da irmã, na margem do rio, sem nada para fazer.”)

Amanhã, voltaria de novo para virar a página. E nos dias seguintes faria o mesmo até ao final do volume. E se, depois disso, a luz do sol continuasse a forçar a entrada nos livros, Calvino respeitaria esse ímpeto avaliando-o como a ansiedade de um leitor que já começou e não quer parar, não consegue: quer ler mais.

Se fosse caso disso, Calvino escolheria outro livro  - colocando algo  de novo debaixo do sol -, depois outro e outro, e voltaria todas as manhãs, sem falta, antes de nascer o dia, para virar a página."



                                                                                                            Gostou, não gostou?

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