sábado, 21 de março de 2015

Diz-me tu

Os poetas vêm ao nosso encontro!




Que me trazem as palavras do mundo?
Signos e significados,
significantes e referentes
e a surpresa de que haja crentes
em pensamentos tão variados.

Que me trazem as palavras do teu mundo?
Verdades por vezes tão estranhas,
que dizes serem legítimas opiniões pessoais
tão verdadeiras quanto as demais,
ainda que aos outros pareçam patranhas.

Que me trazem as palavras daquele mundo?
Ideias que reputo como falsidades,
mas que outros afirmam ser banais
noutras culturas e sociedades,
ainda que em nada nos sejam iguais
e nos custe chamá-las «verdades».

Que me trazem as Palavras do Outro Mundo?
Mandamentos universais
contra os pecados mortais,
ensinamentos divinos
para orientar os cretinos,
sagrados códigos morais
para ensinarmos aos meninos.
E aos demais.

Mas que farei, afinal, às palavras do mundo?
Que verdade trazem elas, no fundo?
Que palavra será a mais verdadeira?
Que verdade será a mais certeira?

A do apóstolo, a do profeta, a de que deus?
A de Einstein, a de Newton, a de Ptolomeu?
A minha, a tua, a deles?
A do cientista, a do poeta ou a de um reles
homem como eu?

Diz-me:
por que régua, por que balança,
por que termómetro ou geringonça,
por que relógio, por que contador,
por que manómetro ou transferidor,
por que astrolábio, por que sextante,
por que perspetiva ou quadrante
medirei
- diz-me tu, que eu não sei -
as verdades de cada um
trazidas pelas palavras do mundo?

Diz-me tu, que eu não sei
que regra social, que lei natural,
que tradição oral, que diploma legal,
que costume, que hábito, que norma,
que equação chamar ou de que forma
condenar
a faca que corta outra garganta humana,
a corrente que garante uma escravidão insana,
a biqueira que maltrata uma criança,
a pistola que calou vozes em França,
o assassino que mata com indiferença  serena,
o doente que sofre sem que alguém tenha pena,
o proxeneta que explora mais de uma dezena,
o sangue de um touro que morre na arena,
o político mentiroso, o funcionário corrupto,
o lambe-botas dengoso, o polícia bruto,
o vizinho manhoso, o vigarista astuto,
o chefe que manda com a arrogância de um puto,
o fanatismo de estádio (ou político, ou religioso),
o respeitinho que sempre foi brando costume,
o racismo que faz este mundo mais perigoso,
o homem que mata por não aplacar o ciúme.

Todos estes pecados e muitos mais,
que não são apenas sete
e nem todos mortais.


Diz-me tu, que eu não sei,
de que forma escutarei
todas as palavras e cada uma
para então, se houver alguma,
encontrar a verdade que será Lei.

Diz-me tu, que eu não sei.

11.03.2015
A.C.

 Obrigado António... que bela forma de comemorarmos este dia!

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